CULTURA MAKER NA EDUCAÇÃO

Olá Pessoal. Esta semana escolhi falar um pouco sobre o movimento “Maker” e como ele se insere nas propostas de ensino ativo e educação para autonomia (heutagogia). Nos últimos anos, tem se falado bastante sobre o assunto com matérias em grandes veículos midiáticos como O Globo e o Estadão. E com uma rápida pesquisa no Google é possível achar alguns textos introdutórios sobre o movimento Maker na educação, como  este.

Não é meu foco aqui, fazer uma descrição detalhada sobre a origem histórica e construção pedagógica da cultura Maker na educação. Esse apanhado teórico ja foi muito bem feito no exelente artigo “The Maker Movement in Education”, publicado na Harvard Educational Reveiw de 2014 (para quem prefere uma fonte acadêmica), e/ou no texto do blog “Fazedores” (dedicado ao movimento Maker no brasil) intitulado “Cultura Maker na Educação” (Para quem preferir uma leitura mais leve e sucinta). Meu foco aqui é, a partir de uma breve descrição do que seria a iniciativa Maker na educação, descrever alguns projetos que considero bem interessantes, e que acredito complementarem o que já tem sido falado o assunto. Passemos à mágica então.

O que é o movimento Maker?

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O termo “Maker” vem do inglês, que significa “criador”, “autor” ou “construtor” e de modo geral (segundo o Wikipédia e demais fontes que o definem), seria uma extensão da cultura do “faça-você-mesmo” (“Do It Yourself – DIY”), que tem como base a ideia de que pessoas comuns podem construir, consertar e modificar diferentes objetos e produtos, de acordo com sua necessidade e demanda.

Não é um movimento recente, mas com o desenvolvimento da internet e ferramentas como redes sociais e YouTube, que facilitaram incrivelmente o acesso à informação, esta ideia se tornou cada vez mais popular e comum. Com uma rápida busca online é possível encontrar tutoriais em texto e vídeo que ensinam, desde como fazer um abajur com garrafa de bebida até uma animação e edição de vídeos com softwares profissionais.

E com desenvolvimento de novas tecnologias de produção (como impressoras 3D e cortadoras Laser) e o surgimento de Fab Labs (oficinas de produção devidamente equipadas para capacitação e prototipação), esse movimento tem evoluído a passos largos, tornando-se cada vez mais abrangente e diversificado.

Maker na Educação

O movimento Maker na educação seria então, basicamente, o uso de oficinas/equipamentos/ferramentas para o desenvolvimento de projetos reais/práticos com finalidade pedagógica, colocando o aluno no protagonismo total do processo, trabalhando autonomia didática, engajamento e motivação. Com essa descrição pode-se pensar que é apenas um nome novo para uma prática pedagógica até bem comum, a de desenvolver atividades prático-construtivas.

Atividades práticas e construtivas sempre permearam a educação, principalmente nas séries iniciais. Eu me lembro muito bem das atividades que fiz com 12 anos em uma extinta disciplina chamada “Práticas Industriais”, onde tínhamos de construir um calendário decorativo (com cola, cartolina e canetas) no começo do ano e árvores de natal de encaixe (com isopor e glitter) no final do ano. Eu adorava este tipo de atividade, tanto que lembro precisamente de tudo que aprendi em cada uma delas.

Então, qual seria a novidade da proposta de uma “Educação Maker”?

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Bom, a principal diferença que notei é que, enquanto no modelo tradicional tais atividades, em geral, ocupam um espaço mais lúdico, como uma atividade complementar e com instruções bem definidas da tarefa para o aluno agir como executor. Na proposta de Educação Maker, essas atividades representam o principal motor do processo de aprendizagem, ou seja, a base para trabalhar o conteúdo programático de modo aplicado e interdisciplinar, além de colocar o aluno como protagonista na definição/elaboração do projeto, cabendo ao professor apenas planejar as demandas, provocações e gatilhos disparadores, além de capacitar o aluno no uso de algumas ferramentas essenciais. É o aluno que define, dentro das propostas da atividade, o que vai construir e que matérias primas e ferramentas vai precisar para trabalhar. E essa diferença é fundamental na construção da autonomia e automotivação para o aprendizado.

A ideia é promover uma educação que seja mais engajadora e envolvente, fazendo o aluno colocar a mão na massa para executar um projeto que ele mesmo elaborou, enquanto desenvolve habilidades que envolvem o conteúdo programático, mas vão muito além disso. Deste modo, se coloca o conhecimento em um contexto real e aplicado, tornando o aprendizado mais estimulante para o aluno, que aprende enquanto lida com problemas e situações reais, em uma mistura entre Aprendizagem baseada em Projetos e a Aprendizagem baseada em Problemas (PBL) (ambas já tratadas aqui na série sobre metodologias ativas).

Embora diversas secretarias estaduais e municipais, confirmem que o tema ainda não faz parte de nenhuma política pública atual, muitas reconhecem que há diversos professores e instituições que tem se colocado à frente de iniciativas pontuais. Atualmente, diversas escolas e universidades tem investido na criação de “Espaços Makers”, que são oficinas equipadas com impressoras 3D, cortadoras Lasers, Fresadores e diversos equipamentos de trabalho manual como martelo, furadeira, tinta, cola e matérias primas (como plástico e madeira), totalmente dedicados a este tipo de proposta educacional.

Como menciona a matéria no Estadão, por enquanto, devido ao custo de alguns destes equipamentos, essas iniciativas são feitas mais em colégios privados de alto padrão ou lideradas por professores de instituições públicas interessados pelo assunto. Mas esta realidade está mudando.

Exemplos de destaque no Brasil

No Brasil já temos uma Rede Fab Lab Brasil, que visa promover a conexão, troca de informação e mapeamento das comunidades FabLabs pelo país. A seguir, descrevo as iniciativas brasileiras dentro desta temática que achei interessante mencionar.

LIvRE – Laboratório de Inovações em Robótica Educacional.

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Este laboratório é uma proposta muito interessante da Universidade Federal do Rio de Janeiro que descobri através do meu colega, o professor de matemática Charles Pimentel (outro entusiasta do Ensino Maker e robótica). A melhor descrição do projeto é a do próprio site do laboratório:

A proposta do LIvRE é utilizar a Robótica Educacional como tema problematizador para uma reflexão crítica sobre o papel da ciência e suas tecnologias em nossa sociedade, tirando vantagem dos dispositivos de baixo-custo que hoje permitem o interfaceamento homem-máquina. As ações do LIvRE estarão voltadas para uma população-alvo formada por aprendizes, instrutores e educadores, envolvidos em atividades formais ou informais de aprendizagem, tais como em Escolas, Museus e Praças do Conhecimento, apenas para citar alguns. Essas ações objetivam a formação inicial e continuada de formadores, processos e produtos envolvendo inovações tecnológicas e pedagógicas em robótica educacional. ”

O projeto conta com várias iniciativas bem interessantes, mas minha favorita é o desenvolvimento de uma linguagem de programação visual baseada em blocos, para programar placas de Arduino (usados em robótica) de modo intuitivo. O projeto é voltado para que crianças a partir de 9 anos que tem interesse pelo assunto, possam ingressar no mundo da programação e robótica.

Núcleo Avançado em Educação (NAVE).

O NAVE é uma proposta que conheci ano passado, ao participar de um evento que visava promover a Cultura Maker chamado Fabrik+, e achei bem interessante.

Basicamente é um Programa de Ensino Médio Integrado Profissionalizante desenvolvido pelo Oi Futuro em parceria com as Secretarias de Estado de Educação do Rio de Janeiro e de Pernambuco. A ideia seria propiciar a alunos de ensino médio de escolas públicas o acesso a cursos técnicos em tecnologias digitais, visando promover uma formação com capacitação ampla. Como a página do projeto descreve: “Ao final de três anos, os jovens saem da escola com competência para se tornarem programadores, roteiristas, designers ou, quem sabe, outras profissões que ainda nem sequer foram imaginadas”.

INSPER – Ensino Superior

O Insper é uma universidade privada de São Paulo que oferece graduação em Administração, Economia e Engenharias (além de cursos de especialização), que também conheci através do evento Fabrik+. Esta instituição me chamou atenção (e por isso decidi mencioná-la) por 3 fatores principalmente.

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O primeiro são as disciplinas que são pautadas na resolução de problemas e interdisciplinaridade desde o primeiro momento. Adotando como método principal a Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL), a universidade tem um ensino com caráter mais aplicado e profissionalizante desde o primeiro momento, dialogando diretamente com a proposta Maker ao trabalhar com projetos e problemas práticos e reais. E neste contexto, o Fab Lab altamente equipado da instituição entra como mais um diferencial para ampliar a possibilidade de projetos e o desenvolvimento de protótipos.

Fab_Lab_logo.svg (1).pngO Fab Lab da instituição é a segunda coisa que me chamou atenção, mas não apenas pelos equipamentos em si, mas pela iniciativa do “Open Day”. O “Open Day” é um dia da semana (neste caso, quinta-feira) em que o Fab Lab da universidade abre suas portas (de 13 às 19 horas) para a comunidade, de modo que qualquer pessoa ou grupo possam usufruir das instalações, maquinário e ferramentas para desenvolver seus projetos. Não há agendamento (é por ordem de chegada) e a pessoa ou grupo que quiser utilizar as instalações deve apenas levar sua própria matéria prima (madeiras para cortar, se for usar a cortadora laser, ou filamentos para a impressora 3D) e atentar para as políticas de segurança. Achei esta iniciativa espetacular para promover a disseminação da cultura Maker pela comunidade.

O terceiro fator é o TechLab (único no Brasil), que é um laboratório de manufatura industrial que visa capacitar os alunos nos processos de produção em escala industrial como fundição, forjamento, injeção de plásticos, na prática com equipamentos de grande porte.

Escola SESC de Ensino Médio.

Essa escola residência, situada na Barra da Tijuca atende, de forma gratuita, cerca de 500 estudantes das 27 unidades da federação, oferecendo educação de qualidade, moradia, alimentação, saúde, cultura, lazer entre outros. Ela sozinha renderia uma publicação dedicada aqui e não digo isso porque trabalho nela, mas porque considero o projeto fascinante, e adoraria ver uma tonelada de escolas como essa espalhadas pelo país.

No que tange ao foco do post, ela conta com um espaço Maker equipado com Cortadora Laser, impressoras 3D, Fresadora CNC, Plotter de corte (“impressoras” que cortam no papel a figura que seria impressa), além de todo tipo de material e ferramenta para usinagem (tintas, colas, furadeira, martelos, madeiras, etc). Além disso, a escola tem uma marcenaria e laboratórios de Robótica, Física, Química e Biologia. Ou seja, é um espaço de excelência em equipamentos e infraestrutura, do tipo encontrado em escolas privadas com altíssimos custos em mensalidade, com o diferencial de que está acessível a alunos que jamais poderiam arcar com tais custos.

Conclusão

É importante ressaltar que, embora estes 4 exemplos que citei envolvam infraestrutura elevada, não é a existência dessa infraestrutura e/ou a temática (como a robótica do primeiro exemplo) que os coloca no contexto da cultura Maker na educação. É a autonomia da ação do aluno no desenvolvimento/elaboração dos projetos, presente em todos estes exemplos, que coloca estas iniciativas nesta temática.

Em outras palavras, é possível ter toda essa infraestrutura e/ou trabalhar com robótica, e não ser considerado uma “Educação Maker” (basta manter o aluno como apenas um executor de atividades pré-programadas e restritas), ao mesmo tempo que instituições e iniciativas sem muita infraestrutura ou recursos podem, perfeitamente, se incluir nessa cultura (Basta que se pautem pelo desenvolvimento da autonomia do aluno na construção do conhecimento e no desenvolvimento dos projetos).

Estes exemplos são apenas algumas iniciativas que achei bem interessantes e que creio ilustrarem bem, como o movimento Maker avança na educação, do nível fundamental até o superior. E isso se insere no contexto da educação para o século XXI, que busca preparar os jovens para além do conteúdo programático, trabalhando a autonomia pedagógica e capacitação para um mundo tecnológico em rápida e constante evolução. Além disso, reconhece que o ser humano é um indivíduo ativo e investigador por natureza, de modo que uma educação que coloca o aluno no protagonismo do processo de aprendizado, pautada na construção, investigação e produção de conhecimento, tende a ser mais estimulante e, consequentemente, mais eficiente.

Para reforçar essa ideia do potencial humano para criatividade e aprendizagem autônoma, eu encerro com o vídeo da palestra ESPETACULAR do indiano Sugata Mitra na plataforma TED. Como sempre espero ter contribuído e até semana que vem.

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