EDUCAÇÃO NO SÉCULO XXI – PARTE VII – CURRÍCULOS

Olá, pessoal, finalmente chegamos à última parte dessa série que tenho feito de reflexões que acho importantes quando falamos de uma Educação para o século XXI. Será que os currículos hoje (que se retroalimentam com os vestibulares e ENEM) não acabam por engessar boa parte do processo de mudança que muitas pessoas julgam necessárias? Será que a forma como são estipulados e cobrados os conteúdos dialoga com as demandas políticas, sociais e econômicas de uma sociedade em evolução tecnológica acelerada? E as ementas curriculares atuais, será que capacitam o jovem brasileiro para um cenário futuro com profissões que ainda não foram inventadas? Essa é a reflexão que proponho hoje.

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Faz um tempo que convivemos com o problema de evasão na educação básica. Mas, atualmente ela tem crescido entre jovens entre 13 e 15 anos, como mostra essa reportagem. E, além de algumas questões sociais, um dos fatores que contribuem para essa triste realidade é o desinteresse pelo conteúdo e a forma como ele é abordado.

Além disso, se você parar por alguns minutos e conversar com parentes e amigos adultos e perguntar sobre os conteúdos que aprenderam no ensino médio, muitos não vão se lembrar muito bem da maioria do que estudaram nessa época, e isso não os impede de serem adultos perfeitamente funcionais.

Acredito que a situação relatada tem origem na forma como são estruturados os conteúdos programáticos no ensino básico (principalmente médio) hoje. Como já falei aqui no texto sobre a BNCC, a impressão que tenho é que se demanda uma quantidade  excessiva de informação com foco bastante técnico, como se o aluno tivesse de se tornar um mini especialista em cada assunto. E isso não faz muito sentido numa era onde, com alguns segundos o aluno tem, na palma da mão dele, 3 páginas de texto falando em linhas gerais o que foi a revolução Russa.

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Em uma era de informação disponível de modo incrivelmente fácil, temos ementas de disciplinas que obrigam o aluno a memorizar um número imenso de informações sobre teorias, fórmulas e procedimentos. E os próprios jovens compreenderam que isso não faz muito sentido. E daí temos desinteresse e, em algumas vezes, evasão. Dessa forma, o ensino fica desconexo da realidade direta do aluno e com isso se perde engajamento. E como podemos atacar esse problema? Abolindo o conteúdo já que, em caso de necessidade, a pessoa que pesquise no Google? Não, claro que não. Acho que nenhum extremo aqui é interessante e nesse caso proponho a máxima da moderação e do meio termo:

Trabalhar um núcleo básico de conteúdo voltado para conhecimentos fundamentais associado a ferramentas para que o aluno possa pesquisar e se aprofundar, caso queira. A ideia é enxugar ao máximo a parte obrigatória imposta ao aluno, focando no que é realmente essencial e necessário para a vida adulta e para que ele possa ter base para fazer uma pesquisa razoável se quiser avançar. Por exemplo, é importante que se tenha uma base sobre eletricidade para compreender sobre o gasto de eletrodomésticos e o que fazer em uma tempestade de raios, mas a menos que você queira trabalhar com instalações elétricas, não faz o menor sentido que seja exigido que se saiba dimensionar um circuito elétrico misto com várias resistências e capacitores.

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Desse modo, é preciso reduzir a quantidade de informação, focando na capacitação para a leitura crítica de dados e no modo de pensar para se consumir ideias, teorias e procedimentos de modo eficiente e significativo.

Nesse contexto, as escolas podem realocar os professores que terão sua carga diminuída para oferecer disciplinas que se aprofundam mais em determinados conteúdos, de modo que o aluno possa escolher aquelas que tem mais interesse/aptidão ou aquelas que deseja experimentar e adaptar sua formação de acordo com seu perfil acadêmico. Dentro dessa proposta, a Aprendizagem baseada em Projetos (que abordei na série sobre metodologias ativas) é uma abordagem que pode se encaixar muito bem. Outra ideia interessante seria organizar a aprendizagem do estudante por ciclos (para cada tema/assunto) e não por anos, como recomenda esta publicação do site Porvir.

Essa redução nos conteúdos técnicos obrigatórios eventualmente vai enfrentar um pouco de resistência advinda do corporativismo de algumas entidades de classe e grupos de professores em prol da empregabilidade. Já abordei sobre isso na reflexão sobre a finalidade do Ensino e, portanto, gostaria de focar em outra parte, que são os conteúdos/habilidades que serão fundamentais para o jovem do século XXI e que, à princípio, não compõem formalmente o currículo básico do Ensino Fundamental e Médio.

Alguns exemplos são:

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Oratória e técnicas de comunicação – Na era da globalização e comunicação se faz cada vez mais  necessário saber se comunicar e trocar informações. Uma das profissões mais proeminentes da atualidade é a de YouTuber e a habilidade que ela mais demanda é a capacidade de se comunicar com uma audiência desconhecida.

Métodos de organização – Em meio a um turbilhão de informações e demandas pessoais, sociais e profissionais é preciso saber se organizar e estruturar suas atividades para conseguir dar conta de tudo de modo saudável e sustentável.

Técnicas de aprendizagem autônoma – Na era da informação, é imprescindível se manter em constante aprendizado e adaptação e para isso todo indivíduo deverá ser minimamente autodidata.

Empreendedorismo pessoal – Em um mercado cada vez mais exigente e diversificado, é preciso se manter atualizado e preparado para se inserir em diversos cenários profissionais.

Inteligência emocional – A evolução tecnológica acelerada e a velocidade de comunicação atrelada às mídias sociais demandam uma grande capacidade de perceber, usar, entender e controlar emoções.

Educação financeira e Economia doméstica – Saber se organizar financeiramente, preparar um orçamento doméstico são fundamentais para uma vida financeira saudável. Além disso, frente a reformas previdenciárias e sistemas colapsantes, é preciso saber investir e compreender um pouco sobre como melhor se proteger financeiramente para garantir qualidade de vida e tranquilidade no futuro.

Com essa breve lista notamos como que todas as reflexões anteriores estão atreladas a essa. Porque é preciso compreender a finalidade que queremos com o ensino para construir seu currículo. Essa construção precisa ser inovadora, humanizada e valorosa. E por fim, precisamos capacitar os professores para atuar nesse cenário de modo eficiente e significativo.

Bom, vou encerrando por aqui esse post para não ficar gigante como o anterior e espero sinceramente que essas reflexões que propus contribuam de alguma forma para a conversa necessária sobre a Educação Básica brasileira e como podemos trazê-la para o século XXI. Até a próxima semana.

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