METODOLOGIAS ATIVAS – PARTE IX: ROTAÇÃO POR ESTAÇÕES

Olá Pessoal. De volta a rotina normal e com baterias recarregadas, essa semana decidi falar sobre uma metodologia “ativa” que considero extremamente versátil e ampla: A Rotação por Estações. Coloquei o “ativa” entre aspas porque há quem argumente que é possível ter uma rotação por estações (explicada a seguir) na qual, em todas as estações o aluno aprende por aula expositiva, de modo passivo. Isso é verdade e um erro muito comum ao se usar esse tipo de técnica, afinal não é meramente a migração de alunos que faz o ensino ser ativo. Porém, na vasta maioria dos sites, livros e artigos que li a respeito, raramente este é o caso. Assim, passemos à mágica.

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Em todos os materiais que li e pesquisei a respeito, o que comumente chamamos de “Rotação por Estações” é um dos diversos formatos de aprendizado usados pelos adeptos do Ensino Híbrido (ou Blended-Learning). Estou terminando o “Ensino Híbrido – Personalização e Tecnologia na Educação” e pretendo fazer uma publicação falando apenas sobre ele e suas nuances. Por isso, para os propósitos desse post, vamos definir de modo muito (MUITO) simplificado, que Ensino Híbrido é uma combinação de técnicas/tecnologias de ensino à distância (autônomo/digital) com ensino presencial (analógico/colaborativo) visando maior personalização e eficiência no processo de aprendizado.

Dentro deste modelo (Ensino Híbrido), algumas técnicas que permitem a combinação de tecnologias e formatos são rotações pedagógicas, onde os alunos migram por diferentes assuntos e/ou formatos de aprendizado de acordo com os objetivos do processo de ensino.  Essas rotações pedagógicas é o que comumente chamamos de “Rotação por Estações” e devido à grande diversidade de formatos e estruturas, decidi listar aqui os 3 mais comuns e interessantes que conheci e/ou já usei. Para ler mais sobre o assunto recomendo este e este texto do portal Blended Learning Universe

ROTAÇÃO POR FORMATOS/MÉTODOS DE APRENDIZADO

Neste tipo de rotação, o aluno trabalha o mesmo assunto durante uma aula, porém em diferentes formatos de aprendizado de modo a exercitar diferentes habilidades e Inteligências. O professor deve definir 3 fatores: cronograma, número de estações e método de ensino/aprendizado.

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O cronograma: Como vão ocorrer as migrações de acordo com o tempo e as condições de cada aula? Haverá uma agenda previamente estabelecida ou o professor dará o comando de acordo com o desenvolvimento das atividades? As estações terão uma ordem específica a ser seguida ou cada aluno pode começar por uma estação diferente? Isso é muito importante para estabelecer se as estações podem trabalhar simultaneamente ou se os alunos devem migrar juntos, em turma, de uma para outra a cada etapa.

O número de estações: De acordo com o tempo disponível, assunto abordado e formatos que se deseja trabalhar, o professor deve definir quantas estações a aula terá e o tempo gasto em cada uma (que não precisa ser o mesmo em todas).

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O método de ensino/aprendizado trabalhado em cada uma:  O professor deve definir se a estação terá aula expositiva, experimental/investigativa, discussões e colaboração em grupo, consulta e pesquisa online, simulações com software, leitura de artigo e assim por diante.

Note que os 3 fatores são inteiramente dependentes um do outro já que de acordo com o método, o número de estações e o tempo é possível abordar o mesmo assunto de modo simultâneo nas estações ou de modo crescente (onde os alunos avançam juntos) pelas estações.

Para ilustrar esse modelo vou apresentar um exemplo simples usando 3 estações para trabalhar a primeira lei de Newton (Inércia) em uma aula de 45 minutos (com 15 minutos por estação), onde a turma foi dividida em 3 grupos que giravam pelas estações de modo simultâneo.

Estação 1: Instrutiva/Expositiva – Os alunos conversam com o professor sobre o tema, recebendo alguma instrução sobre o princípio da inércia e tirando dúvidas diretamente.

Estação 2 – Os alunos formam um ou mais pequenos grupos (o ideal é até 4 alunos por grupo, portanto o número de alunos na estação define o número de grupos) para ler uma breve explicação sobre o princípio da inércia e, em seguida, discutir uma situação problema (real) proposta. Em 15 minutos o grupo deve produzir uma síntese da discussão com a proposta de uma solução ao problema à luz da primeira lei de Newton.

Estação 3 – Os alunos, individualmente, têm 10 minutos para trabalhar com um simulador online e um roteiro de pesquisa para aprender sobre a primeira lei e simular situações cotidianas. Nos 5 minutos finais eles devem responder um questionário online com algumas situações problema.

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Esquema de Rotação por Formato

Note que, neste formato, a ordem das estações não é relevante, já que em todas o aluno tem chance de trabalhar o mesmo assunto (primeira lei de Newton) nos 3 formatos, de modo colaborativo (discutindo com os colegas), de modo individualizado (pesquisando e resolvendo problemas no computador) e, por fim, de modo orientado, com ajuda de um professor com o qual ele pode tirar eventuais dúvidas e/ou ter acesso ao conteúdo exposto de uma forma diferenciada.

O site da Blended Learning Universe oferece um exemplo similar (com 3 estações nos mesmos formatos) para trabalhar gramática (com vídeo explicativo). Tanto meu exemplo, como o do site, usam o esquema indicado na Figura acima.

Para quem estiver interessado em ler mais sobre esse formato e suas possibilidades, recomendo a dissertação de Mestrado “ENSINO DE SOLUÇÕES QUÍMICAS EM ROTAÇÃO POR ESTAÇÕES: APRENDIZAGEM ATIVA MEDIADA PELO USO DE TECNOLOGIAS DIGITAIS”

Este formato pode ser feito como nos exemplos indicados, em uma aula e na mesma sala, ou com mudança de sala de aula para diferentes formatos. Neste segundo caso, uma das estações pode ser uma sala com carteiras colaborativas (para discussões em grupo), uma sala de informática (para simulações e pesquisas online), um laboratório (para experimentos) e uma sala de aula tradicional (para instrução e exposição). Embora em ambos os casos haja rotação dos alunos por diferentes estações onde se mantem o mesmo assunto e muda o formato/método de abordagem em cada estação, nos Estados Unidos é comum classificar o primeiro exemplo (com as estações em uma mesma sala) de “Station Rotation” e o segundo (com estações em diferentes salas e com diferentes professores) de “Lab Rotation”, como indicado nesse excelente material classificação de métodos de Ensino Híbrido (ou Blended-Learning). Eu entendo essa classificação, mas confesso que considerando a essência da proposta, ambas consistem na mesma coisa – Trabalhar o mesmo tema em diferentes formatos – em diferentes escalas. O que difere, a meu ver, do segundo modelo de rotação que falarei a seguir:

ROTAÇÃO POR ASSUNTOS/TEMAS

Diferentemente do anterior, neste formato o assunto trabalha diferentes temas/assuntos em cada estação, migrando entre os assuntos. Neste caso, costuma-se usar o mesmo modelo/formato de aprendizado para tratar dos diversos temas de modo equivalente. Neste formato o professor também deve atentar para 3 fatores, sendo os dois primeiros idênticos ao formato anterior (Cronograma e número de estações). O terceiro passa a ser Temas e formato.

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Temas e formato: O professor precisa definir quais temas pretende abordar em cada estação e o formato que pretende utilizar para o aprendizado. Neste caso, se optar por instrução expositiva precisará da ajuda de colegas e/ou monitores se quiser trabalhar simultaneamente.

Para ilustrar vou listar aqui dois exemplos usando esse formato. O primeiro consiste em uma aula sobre formas de troca de calor (Condução, Convecção e Irradiação) usando 3 estações em uma aula de 45 minutos (15 minutos por estação). O método escolhido para as 3 estações foi o uso de vídeo seguido de simulações online, discussões e explicação de questões fenomenológicas. Assim os alunos foram divididos em 3 grupos e cada grupo encaminhado a uma estação. Ali, o grupo assistiria a um vídeo disparador explicativo. Em seguida os mesmos usariam um simulador online. Nesta etapa, o grupo segue um roteiro que visa promover uma discussão sobre os fenômenos observados/simulados. Por fim, o grupo deve elaborar e sintetizar por escrito explicações para alguns questionamentos fenomenológicos propostos. Ao final dos 15 minutos o grupo troca de estação e executa as mesmas etapas com um novo assunto. Por fim, as explicações sintetizadas por cada um dos 3 grupos (com eventuais sugestões/correções técnicas) são disponibilizadas à turma toda para estudo e consulta futura.

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O segundo exemplo consiste em uma aula mais longa e interdisciplinar de Ciências da Natureza, com 90 minutos de duração (dois tempos de 45 minutos germinados) com 6 professores (2 de Física, 2 de Química e 2 de Biologia) e 60 alunos. A aula visa capacitar os alunos para um trabalho de campo de diagnóstico de impacto ambiental, onde os mesmos devem aprender a realizar diferentes medidas de indicadores de poluição de um rio (como temperatura, umidade relativa do ar no entorno, pH, condutividade elétrica e turbidez da água, presença de biodiversidade e mata ciliar, etc). Neste caso, os diferentes instrumentos e tipos de medidas são organizados em 6 estações, cada uma em uma sala, com um professor em cada estação e os alunos divididos em grupos de 10. Assim, em cada sala, um grupo ia receber uma explicação teórica e prática sobre o funcionamento e uso do instrumento por 12 minutos. Em seguida, os alunos tinham 3 minutos para se deslocar para outra sala para aprender sobre outro instrumento/medida.

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Embora em escalas diferentes, ambos os exemplos mantêm o mesmo princípio que é o de mudar o tema/assunto em cada estação, mantendo a abordagem. Mas nada impede de se fazer uma combinação dos formatos e ter variação de métodos e assuntos/temas entre as estações. Há trabalhos bem interessantes neste sentido e a própria dissertação de mestrado citada anteriormente faz esse tipo de combinação.

Uma coisa que os dois formatos de rotação tratados aqui têm em comum, é a atividade em grupo, onde em cada estação há um grupo de alunos trabalhando simultaneamente. Mas e quando queremos trabalhar com os alunos individualmente? Neste caso, recomendo o terceiro formato que escolhi apresentar aqui.

ROTAÇÃO INDIVIDUAL

Este formato de rotação permite uma ampla gama de variações e pode ser usado como modelo de escola (e não apenas para um assunto ou conteúdo). Portanto, merece uma publicação mais detalhada apenas sobre isso (que pretendo abordar no post sobre Ensino Híbrido). Aqui vou falar de uma variação que envolve uma escala localizada onde se trabalha apenas um assunto de uma disciplina.

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Rotação Individual – Alunos migram por diferentes estações de acordo com sua necessidade e cronograma

Neste formato, o professor prepara estações que ocorrem em diferentes momentos e formatos através das quais o aluno percorre de acordo com um cronograma estabelecido pela sua necessidade, algoritmo ou previamente combinado com o professor. Ele envolve uma combinação dos formatos anteriores de modo que é definido pelos mesmos 4 fatores (Cronograma, Número de Estações, Método de Aprendizado e Tema). Além disso, há um quinto fator: Meta Final.

Pode parecer redundante, já que toda aula/atividade tem um objetivo ou meta. Porém, nesse formato de rotação, a meta é o que vai criar a demanda para o aluno definir as etapas e estações que vai visitar. Esse tipo de atividade pode ser realizado em uma aula apenas, mas em todos os trabalhos que li, geralmente envolve atividades mais longas.

A ideia é que hajam estações como laboratórios de informática (para pesquisas e uso de ferramentas didáticas online), salas colaborativas (para discussões em grupos), e sala com professores/orientadores, seja para devolutiva (momentos para feedbacks individuais e/ou coletivos), sejam para aulas expositivas e instruções diretas. Nesse formato, cada aluno circula por estes ambientes/estações de acordo com sua necessidade ou cronograma que ele constrói com um professor/orientador, visando atingir a “Meta final” que pode ser uma atividade específica (preparar um seminário) ou um objetivo mais geral (aprender conceitos de óptica).

Bom, o post já está gigante e por isso vou ficar por aqui. Como mencionei no começo essa metodologia é extremamente versátil e adaptativa, de modo que seu potencial pedagógico é excepcional e cada um pode adaptar à sua realidade, contexto e objetivos. Há outras variações e combinações que pretendo abordar no futuro e novamente, o que fiz foi um recorte dentro do vasto material que há disponível sobre o tema. Como sempre, espero ter ajudado e até a próxima semana.

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