BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR – Uma Proposta de Reflexão

Olá Pessoal. Na última semana, no dia 03 de abril, o MEC apresentou finalmente a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) para o Ensino Médio. A BNCC é um documento (disponível aqui), inédito no Brasil, que descreve os objetivos de aprendizagem de toda a educação básica. E como este documento afeta diretamente o nosso trabalho como educadores, achei que seria importante aproveitar esse momento para falar um pouco sobre o assunto.  As partes referentes a educação infantil e ensino fundamental foram apresentadas ano passado e, depois de 8 meses, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), em dezembro. Como trabalho diretamente com Ensino Médio, meu foco, neste primeiro momento, será no documento referente a esse seguimento da educação básica.

Não é minha intenção discutir aqui os meandros do documento e minha visão sobre possíveis implicações de modo detalhado, porque isso seria muito prematuro. O documento acabou de ser entregue ao CNE que vai organizar discussões e audiências públicas antes de colocá-lo em votação, então muito ainda será feito e construído em cima disso. Para uma descrição breve e bem detalhada dessa versão do documento recomendo essa matéria que saiu no jornal Estadão com o infográfico abaixo que é bem esclarecedor.

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O meu foco hoje é levantar algumas reflexões que acredito que sejam bem oportunas para este momento. Ao que tudo indica, essa BNCC vem para sintetizar e consolidar o que já vinha se desenhando através dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN e PCN+), focando em um formato de ensino mais interdisciplinar com currículos mais amplos. Isso coloca menos foco em conteúdos e mais em habilidades de modo geral e desde já a base divide opiniões e muito ainda será discutido sobre ela nos próximos meses.

Todo este rico debate que já está ocorrendo sobre o tema representa uma excelente oportunidade para que revisitemos os conteúdos trabalhados em nossas disciplinas, fazendo uma importante reflexão: Como as ementas e conteúdos trabalhados hoje se inserem no contexto da educação para autonomia na era da informação?

Para explicitar melhor o que quero propor vou usar como exemplo a disciplina que eu leciono, Física. Como bom professor de Física eu adoro essa ciência e a considero fundamental para todo cidadão adulto e funcional compreender os inúmeros fenômenos que o cercam. Mas, ao mesmo tempo, muitas vezes me encontro frustrado com algumas demandas curriculares impostas pela tradição da disciplina, frequentemente refletida nos concursos país afora e materiais didáticos.

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Por exemplo, compreender a Física do Som e seus fenômenos de modo a entender melhor o comportamento de instrumentos musicais e demais aplicações cotidianas é algo que acho fascinante e sempre desperta o interesse dos alunos. Mas boa parte deste interesse se esvai quando preciso convencer um aluno que pretende seguir uma carreira de jornalismo, por exemplo, a memorizar e utilizar equações para calcular harmônicos e frequências ressonantes em um tubo sonoro a partir do comprimento do tubo. Isso é algo que, se você não vai trabalhar diretamente com a produção de instrumentos musicais e/ou com engenharias e tecnologias que aplicam estes conceitos, possui um nível de tecnicismo matemático que acho desnecessário.

Os Físicos que lerem isso não me entendam mal, eu compreendo que o ferramental matemático ajuda e muito a analisar e compreender melhor alguns fenômenos. Mas quando concursos (independente do foco profissional pretendido pelo aluno) decidem exigir o uso prático desse ferramental de modo detalhado e complexo, com cálculos excessivamente trabalhosos em problemas totalmente abstratos, eles forçam em sala de aula um ensino de Física que acaba sendo desmotivador. Por mais que eu use vídeos, animações e experimentos para ilustrar a aplicabilidade daquele conceito e colocá-lo no contexto do aluno, todo ganho em engajamento pode cair por terra quando precisamos migrar para resolver problemas abstratos cujo  único intuito é aplicação direta da fórmula para fixação da ferramenta.

Mesmo o ENEM, que nos últimos anos tem buscado trazer problemas mais próximos da realidade, volta e meia traz problemas sem o menor propósito lógico senão a verificação do domínio de um determinado conjunto de equações e regras, como essa questão da prova de 2016:

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Eu entendo que além do conteúdo trabalhado, ao resolver este tipo de problema, o aluno faz um exercício mental que reforça a construção do raciocínio lógico, que lhe será muito útil em diversas áreas. Mas há inúmeras outras formas mais estimulantes para se trabalhar isso. Há também, o argumento (que eu e muitos amigos já defendemos) de que, como não sabemos precisamente quais serão os alunos que vão vencer paradigmas e criar inovações revolucionárias, combinando dois ou três conteúdos que ninguém pensou em combinar (como a Teoria de Jogos da Matemática/Economia e a Biologia evolutiva para descrever surgimento de colaborações presa/predador), ensinamos um pouco de tudo para todos.

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Mas eu me pergunto se isso é realmente necessário na era da informação disponível a um clique de distância, e se tem mesmo o efeito de capacitar a todos naqueles conteúdos. Porque, se o ensino ocorre sem motivação, ele raramente é efetivo e acaba que o aprendizado fica comprometido. E aí fica a reflexão de qual é o nosso objetivo com o Ensino Básico.

Novamente, uso um questionamento da minha realidade para ilustrar. Quando eu trabalho cinemática e dinâmica (áreas da Física que se dedicam a compreender e descrever os movimentos e suas origens) eu me satisfaço mais se o aluno compreender porque ele se sente arremessado para o lado quando o ônibus faz uma curva, ou quando ele calcula numericamente a distância que precisa arremessar uma bola de basquete para fazer uma cesta que fica 5 metros acima do solo (sim, isso é um problema “real” de um livro de física)?

Quando falamos de educação para autonomia e de trazer o aluno para o protagonismo do ensino, um ponto fundamental para este processo passa pela motivação e estímulo do aluno e isso demanda problemas mais reais e contextualizados. Eu costumo encontrar muito mais adesão dos meus alunos ao trabalhar trocas de calor, quando uso esse conteúdo para explicar como diferentes posições no forno podem ajudar a assar melhor um bolo ou apenas gratinar o topo do assado. E toda essa adesão fica um pouco fragilizada quando o próximo passo demanda que eu trabalhe problemas como determinar a temperatura final de uma mistura de água, café e cubos de gelo. Mesmo envolvendo uma situação não tão abstrata quanto a de um bloco cúbico em um plano inclinado (outra favorita de alguns concursos e livros), já que essa envolve materiais reais (água, café e cubo de gelo), a situação em si é irreal, já que não conheço ninguém que pare para analisar essas misturas com um termômetro e calculadora na cozinha da sua casa.

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Acredito que muito do conteúdo trabalhado hoje na maioria das áreas, assim como em Física, é de grande importância para todo cidadão e que até um certo conhecimento técnico em determinados contextos e conceitos se faz necessário. Mas, também compreendo que algumas partes dos currículos atuais podem ser influenciadas por dois outros fatores a ser considerados: Uma certa tradição disciplinar que data de uma época onde a informação era escassa, e o foco do ensino demandava uma abordagem mais conteudista. E uma busca de entidades de classe por empregabilidade docente, que pode levar à tentativa de criar uma demanda por professores através do aumento da demanda curricular. Por isso, creio nessa necessidade de refletirmos sobre as ementas em virtude do que queremos para o ensino e, posso estar sendo ingênuo, mas vejo com bons olhos a oportunidade que o momento atual trás.

Afinal, muito tem se discutido atualmente sobre diferentes modelos de ensino com educação para autonomia (heutagogia), novas metodologias e os papeis do aluno e do professor na era da informação. E acredito que essa discussão invariavelmente passa por uma revisão dos conteúdos programáticos trabalhados, da forma como são abordados, dos objetivos que temos com o ensino básico e dos mecanismos de avaliação que usamos (aliás pretendo fazer um post só sobre isso).

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Enfim, para concluir, meu ponto aqui não é advogar que os conteúdos trabalhados são inúteis e que a BNCC está correta em não dividir os conteúdos ou em tornar apenas português e matemática obrigatórios ao longo do Ensino Médio. Meu ponto é que esse momento representa uma oportunidade única de refletimos sobre o que queremos do ensino médio. Qual é nosso propósito/objetivo quando nos dedicarmos a lecionar os conteúdos que lecionamos? O que queremos do cidadão que emerge deste ensino básico? E, finalmente, se as ementas atuais como são estipuladas e cobradas em concursos e afins, refletem e promovem esses objetivos e propósitos.

Essa é uma conversa que estou ansioso para participar (por isso opiniões e críticas, como sempre, são bem-vindas). Como sempre, espero ter contribuído de alguma forma e até semana que vem.

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