METODOLOGIAS ATIVAS #5: ENSINANDO ATRAVÉS DO DEBATE

Olá Pessoal. Dando sequência a nossa série sobre metodologias ativas, chegamos na penúltima postagem sobre o tema que vai tratar dos debates discursivos. O debate é, de modo geral, uma importante e poderosa ferramenta de aprendizagem e partilha de ideias. Porém, há algumas armadilhas no uso de debates em salas de aula que podem alienar e confundir os alunos, tendo efeito completamente inverso ao que era pretendido. Por isso, neste post vou começar pelas críticas feitas ao uso de debate em salas de aula, uma vez que elas evidenciam o que deve ser evitado no uso desta prática pedagógica de modo a ter uma atividade bem produtiva.

Debate em Sala: O que não fazer!

A Professora Nancy Tumposky no seu artigo “The Debate debate” (que livremente traduzindo seria “O debate sobre o debate”), lista as 4 principais críticas feitas sobre o uso dessa ferramenta.

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1 – Tendência à falsas dicotomias: Muitos professores, ao proporem debates educacionais tendem a usar um formato clássico de dividir a turma em dois grupos levando inadvertidamente os alunos a compreender que há uma dicotomia sobre aquele tema, o que raramente é o caso para a maioria dos assuntos. Ao fazer isso o debate, ao invés de levar os alunos a considerarem múltiplos pontos de vista sobre um tema, os leva a analisar a questão concebendo apenas dois posicionamentos possíveis (“Sim” ou “Não”). Ou seja, o debate, neste caso, simplificou exageradamente a própria natureza do conhecimento, ignorando nuances.

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2 – Tendência à vitória: Sem o devido cuidado, debates podem levar os estudantes a uma postura de competição pela vitória. Assim, ao invés dos alunos buscarem as melhores propostas para solucionar o problema ou os melhores argumentos e fatos para compreender uma situação, eles passam a focar em ganhar a discussão. Deste modo, passam a fazer uma busca seletiva de argumentos e dados que corroboram sua posição, se recusam a fazer concessões e podem até reduzir os argumentos a ganchos retóricos.

3 – Tendência à buscar dois lados em tudo: O formato tradicional de debates pode levar os alunos a crer que, para validar um ponto é necessário que haja dois lados considerados em pé de igualdade e validade em qualquer questão. O que pode levar à distorções de buscar um “lado correto” em tudo e de se defender posicionamentos bizarros. No artigo, a professora cita o exemplo dos grupos que rejeitam a ocorrência do holocausto Judeu na segunda guerra. Esta é uma posição obviamente não razoável de ser defendida em um debate.

4 – Tendência ao enfrentamento: O formato tradicional de debates demanda, na maioria dos casos, uma postura de enfrentamento entre os alunos. Porém, esse tipo de postura não condiz com o perfil de muitos estudantes que vão se sentir constrangidos ou simplesmente não participarão ativamente da atividade. De todo modo não será construtivo para estes estudantes.

Então, porque fazê-lo?

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Ao analisar as 4 críticas acima pode-se argumentar “Porque então usar debates em salas?”. O Pesquisador Steven Vargo argumenta em seu artigo “Teaching By Debate” (que se traduz livremente para “Ensinando por meio de Debate”), que há formatos de debates a serem explorados que, ao mesmo tempo que evitam os elementos listados acima, promovem engajamento, proatividade e memorização efetiva entre os alunos. Além disso, debates estimulam a colaboração e a estrutura do pensamento lógico e têm sido muito bem-sucedidos em cursos online. Assumindo que através do debate, dependendo do formato, é possível acessar múltiplos pontos de vista sobre uma questão, trabalhar a autonomia acadêmica e exercitar técnicas de argumentação e análise crítica, nota-se no debate uma importante ferramenta para ensino ativo. Para um uso produtivo, Steven sugere diversos métodos de debates que tem se mostrado bem efetivos. Como o foco do seu trabalho é graduação em direito eu selecionei os dois, dos 5 métodos, que a meu ver podem ser diretamente aplicados em aulas de ensino médio e fundamental sem problemas.

Métodos

debate-construtivo

1 – O debate em quatro cantos: Ele começa com um questionamento ou afirmação como: “O uso de energia nuclear representa um risco ambiental muito grande e deve ser abolido o quanto antes”. Em seguida os alunos têm algum tempo para considerar individualmente a questão e fazer alguma pesquisa rápida (se dispuserem de mecanismos para tal). O professor então classifica os 4 cantos da sala como “Concordo Plenamente”, “Concordo”, “Discordo” e “Discordo plenamente”. Os alunos então se dividem baseado na sua breve ponderação sobre o tema, e caminham para o canto que acreditam mais lhes representar. Em seguida, os membros de um grupo partilham entre si seus dados e considerações. Depois dessa deliberação cada grupo deve apresentar ao resto da turma o seu argumento mais forte (pode ser apenas verbalmente ou podem elaborar slides, fica a cargo do professor). Após essa troca de argumentos os alunos são livres para trocar de canto, se assim desejarem. Essa forma de debate elimina a falsa dicotomia e permite nuances sobre o ponto em questão.

papeis-fundamentais

2 – O debate por personagens: Também foge da falsa dicotomia ao atribuir diferentes papeis aos alunos (ou grupos de alunos) em uma questão com diferentes pontos de vista. Por exemplo, no tema sobre políticas envolvendo planos de saúde, a turma pode ser dividida em 5 grupos onde um grupo representa a população, o segundo: médicos, o terceiro representa empresas de plano de saúde, o quarto: agentes do governo e o quinto: hospitais.

Assim os alunos adquirem um conhecimento amplo da questão a partir de diversos pontos de vista e diferentes contextos.

Um terceiro método que ele sugere é, basicamente, o mecanismo usado no “Aprendizado baseado em problemas” que já tratamos, com uma ideia de maior discussão entre os grupos na solução do problema proposto.

De todo modo, debates são uma ferramenta essencial para a troca de ideias e experiências que nos levam à formação de opiniões. Portanto não podemos fugir deles no convívio em sociedade e, ao usá-los como mecanismos de aprendizagem estamos, além do conteúdo proposto, estamos capacitando os alunos no uso de habilidades essenciais para a maturidade, autonomia intelectual e exercício da própria cidadania. Por hoje é só e como sempre, espero ter contribuído de alguma forma e, até semana que vem.

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