METODOLOGIAS ATIVAS #4: INTRUÇÃO PELOS COLEGAS (PEER INSTRUCTION)

Olá Pessoal. Mais uma semana e chegamos na quarta metodologia ativa da nossa série que é a “Peer Instruction”, também conhecida como instrução pelos colegas, instrução por pares e afins. Essa técnica é a minha favorita porque, na minha opinião, é a metodologia ativa mais fácil de ser incorporada ao método tradicional de ensino permitindo uma transição gradativa, sem muita ruptura de formato, mantendo a eficiência já conhecida das metodologias ativas. Demanda poucos recursos, consome menos tempo de planejamento que as demais e tem um índice de eficiência bem elevado segundo todos os estudos que já encontrei nas mais diversas áreas e níveis. Então, sem mais enrolação, passemos ao método.

O Método.

Existem algumas pequenas variações na aplicação do método, mas vou descrever aqui o formato descrito no livro “Peer Instruction: A Revolução da Aprendizagem Ativa”, do professor Eric Mazur, da Universidade de Harvard que foi quem formalizou o método. Além disso, este é o formato usado nos principais trabalhos acadêmicos que aplicaram o método tanto no ensino superior e médio com grande sucesso.

A técnica consiste em algumas etapas com 3 possíveis caminhos e pode ser resumida pelo fluxograma abaixo.

Peer-Instruction

– Breve exposição

Os alunos tem acesso ao conteúdo a ser aprendido através do professor, pode ser por material de leitura, vídeo, algum experimento ou uma simples aula expositiva. Esta exposição deve ser o mais clara e direta o possível e durar no máximo cerca de 20% do tempo de aula (10 minutos em uma aula padrão de 50 minutos).

– Testes conceituais

Os alunos então devem fazer um breve teste conceitual através de uma questão de múltipla escolha. Nesta etapa o professor deve ser capaz de registrar a resposta de cada aluno e saber o índice de acertos sem revelar o gabarito aos estudantes. Existem várias formas de se registrar as respostas como aplicativos em celulares, sistemas integrados com plataformas online (para isso como Moodle e Socrative), ou simplesmente o velho meio analógico onde se distribui aos alunos cartões com as letras A, B, C e D, expõe a questão no quadro, e solicita que os alunos, no momento oportuno, levantem os cartões com a resposta escolhida para que você registre. Esta etapa não deve levar mais do que 10% do tempo de aula.

– Feedback e Decisão

Aqui o professor, com o gabarito e as respostas em mãos, deve fazer uma rápida análise do índice de acertos (neste ponto métodos digitais facilitam muito a vida). Se o índice de acertos for inferior a 30% da turma, então ele deve retornar à exposição e revisitar o assunto com alguma abordagem diferenciada uma vez que, obviamente, a absorção de conteúdo pela turma foi relativamente baixa.

feedback-instruçao-por-pares

Caso o índice de acertos seja superior a 70%, a incompreensão do tema pode ser considerada pontual e, portanto, o professor deve revelar o gabarito e fazer uma breve explicação voltada para os que não acertaram de modo a sanar essas dificuldades pontuais. Agora, se o índice de acerto ficar entre 30% e 70% entra o coração do método e a próxima etapa. Esta etapa também deve tomar um máximo de 10% do tempo de aula (5 minutos em uma aula padrão de 50 minutos).

– Discussão e colaboração.

Neste caso o professor deve, em posse das respostas, dividir a turma em grupos (de 2 a 5 alunos). Nesta divisão é importante tentar englobar em um grupo a maior diversidade de respostas possível e evitar maiorias. Nestes grupos, os alunos devem apresentar entre si a resposta que escolheram e justifica-la. Os alunos devem então discutir livremente sobre qual resposta acham melhor e chegar a algum consenso. Aqui entram alguns pontos importantes.

Discussao-Grupo

O consenso SÓ pode ser atingindo por convencimento e argumentação e nunca por intimidação, e a conversa entre os alunos sobre suas respostas deve ser o mais livre possível, sem qualquer interferência do professor. Após essa discussão cada grupo deve apresentar seu consenso e o professor avalia o índice de acertos. Neste momento ele pode escolher apresentar um novo teste/questão com o mesmo conceito e nível de dificuldade o qual os alunos devem, novamente, responder individualmente. Assim ele pode confirmar se o índice de acerto subiu acima de 70%. Caso contrário a etapa é refeita até que se atinja. Caso haja elevação do índice acerto acima de 70% faz-se a explicação pontual do item anterior e a aula segue. Por ser a parte fundamental do método é sugerido dedicar pelo menos 40% do tempo de aula (20 minutos em uma aula de 50 minutos) a esta etapa.

Fundamentos, História e Eficiência.

Usando estas etapas muitos trabalhos (como este e este) tem verificado um aumento no engajamento e desempenho dos alunos. Um trabalho realizado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense, em Pelotas-RS, combinou essa técnica ao Ensino Sob Medida para ensinar electromagnetismo. Usando 3 turmas de nível médio, por dois anos consecutivos, eles submeteram duas turmas ao método enquanto uma recebeu apenas aulas no modelo tradicional expositivo para comparação. Com avaliações antes e depois do período do estudo, foram registrados ganhos significativos no desempenho das turmas submetidas ao método em relação a turma que teve apenas aula expositiva. Resultados assim tem sido observado em diferentes estudos no exterior e no Brasil tanto no ensino superior quanto médio.

troca-de-ideias

O argumento para a eficiência e sucesso do método reside no fato de que os alunos que acertaram a questão conseguiram fazer a transição do “não sei” para “agora eu sei”. E como o fizeram há poucos instantes, têm melhor compreensão do esforço mental e da linha de raciocínio que os levou à transição do que o professor, que já teve seu primeiro contato com o assunto e fez essa transição anos atrás.

Nós aprendemos aquele assunto que ensinamos há muitos anos e revisitamos o assunto frequentemente de modo que muitas ideias que nos parecem cada vez mais óbvias e simples podem ser complicadas para um primeiro ouvinte. Assim, colaborando, os alunos podem ajudar seus colegas que não compreenderam muito bem a fazer a transição. Além disso, ao expor suas explicações os alunos colocam seu raciocínio a prova e fazem o devido esforço mental necessário para a aprendizagem e memorização, ao mesmo tempo que exercitam a argumentação e podem compreender melhor a escolha que fizeram acerca do assunto.

eric

O professor Eric Mazur ensina Física em Harvard e diz que “descobriu” o método por acidente quando deixou sua turma sozinha por um momento no meio da solução de um problema. Ao retornar para a sala ele percebeu que havia uma acalorada discussão entre os alunos sobre o exercício. Ele notou posteriormente que o assunto do qual o problema tratava acabou se mostrando um dos assuntos que os alunos mais dominaram nas provas e exames que se seguiram. Em entrevista o professor diz que se via frustrado por sempre buscar aulas experimentais inovadoras e motivadoras, com grande adesão dos alunos, mas ainda sem obter muito sucesso em aumentar o desempenho acadêmico dos mesmos em seus exames. Com a descoberta e estudos ele formalizou a técnica em inúmeros trabalhos compilados em seu livro com primeira edição publicada em 1990.

Além da divisão do tempo, é importante também escolher quando usar o método. No que tange a ciências naturais, particularmente em Física e Química, este método tem sido mais bem sucedido (em minha observação) para trabalhar questões mais conceituais e fenomenológicas. De todo modo, nada impede o seu uso para resolução de problemas mais práticos e numéricos.

Vou encerrar por aqui porque este post já ficou enorme (é um assunto bem vasto e posso revisitá-lo caso queiram) e, como sempre, espero ter contribuído e até semana que vem.

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